As Mulheres na Propaganda Soviética

Por Prof. Rebecca Freitas (Unioeste, doutoranda da UFF)


Muitas vezes quando falamos sobre a Revolução Russa e a União Soviética lembramos de palavras como bolcheviques, mencheviques, comunismo, socialismo e de figuras como Lênin , Trotsky e Stálin. Tudo isso é muito importante, mas não é suficiente para entendermos o que foi esse processo. Uma Revolução não significa somente uma mudança do regime político ou econômico numa compreensão geral. Ela muda diversos aspectos da vida de homens e mulheres concretos. Há mudanças nas indústrias, nos empregos e nos salários. Mas também na educação e moradia. Muda até a forma das pessoas pensarem e se relacionarem! Um tema interessante é pensar como a Revolução Russa impactou a vida das mulheres.

Em primeiro lugar, temos que levar em consideração que a União Soviética existiu por mais de 70 anos e que as condições das mulheres mudaram ao longo desse período. Nesse texto vamos falar sobre as mudanças ocorridas em 1917, logo depois da revolução.

A partir da Revolução Russa em 1917, as mulheres conquistaram diversos direitos que ainda não existiam em outros países do mundo na mesma época. Uma forma de sabermos disso é olhar para a legislação da época como uma evidência do que aconteceu. Após a revolução foram aprovadas leis que garantiam: Direito de eleger e ser eleita (1918), Direito ao divórcio direto e independente de mútuo consentimento (1918), Direito a seguir o cônjuge apenas se assim desejasse (1918), Pensão alimentícia para ambos os sexos (1918), Licença-maternidade paga pelo Estado (1920), Legalização do aborto (1920), Igualdade salarial entre os sexos (1918).

Se as leis são uma evidência de como caminhavam as relações de gênero naquele período, podemos procurar respostas também em outros lugares. Já se perguntou como eram vistas as mulheres naquele período? Que ideia as pessoas tinham delas? E que ideias a liderança da revolução estimulava que a sociedade tivesse? Essa não é uma pergunta fácil de ser respondida, mas podemos pensar alguns elementos a partir dos cartazes que foram produzidos naquela época.


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Cartaz de Propaganda Soviética

Os cartazes foram uma forma de comunicação importante durante a revolução russa. Neles podemos ver representações de ideias que se desejava promover através da propaganda e que compunham a visão de mundo dos seus produtores e de seu público. Podemos pensar, assim, que os cartazes podem ser fontes interessantes para estudar a história de vários períodos. Em relação à História da Revolução Russa especificamente, os cartazes ganham ainda mais importância por dialogarem com uma tradição da Igreja Ortodoxa russa de usar imagens para se comunicar com os fiéis . Além disso, naquela época havia grandes taxas de analfabetismo – trazendo ainda mais importância para as imagens.

Se olharmos para a representação das mulheres especificamente, veremos que até 1920 elas apareceram pouco nos cartazes. Os heróis representados eram as figuras do trabalhador, do soldado e do camponês. Nos cartazes desse período, quando as mulheres apareciam eram majoritariamente como figuras alegóricas. Isso quer dizer que elas representavam ideias e não mulheres de fato. Essa foi uma representação comum durante a Revolução Francesa como na famosa pintura de Delacroix feita em 1830, onde a mulher representa a liberdade que lidera o povo. Esse tipo de representação também era comum na Rússia pré-revolucionária, como podemos ver nesse cartaz. Ele se chama “Rússia e seu Guerreiro” e foi feito em 1905. Nele a mulher representa a pátria, a Rússia.



Cartaz propaganda da Rússia
Rússia e seu guerreiro (1905)

Outro exemplo é esse cartaz, intitulado “Rússia pela Verdade” de 1914, ano em que iniciou a Primeira Guerra Mundial. Nesse cartaz, a mulher, além da mulher que representa alegoricamente a Rússia, podemos identificar outras alegorias, como o inimigo transformado em monstro e a referência à São Jorge na vestimenta, armadura e postura da Rússia.


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Rússia pela Verdade (1914)

Essa representação alegórica permanece presente depois da revolução até 1920. Por exemplo, nesse cartaz, de 1917, intitulado “Vote no partido da Liberdade do Povo” a mulher sentada ao cavalo empunhando uma espada representa a ideia de liberdade.


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Vote no Partido da Liberdade (1917)

Não é uma referência às mulheres realmente existentes, mas uma alegoria.

A partir de 1920 há uma mudança na representação das mulheres – surge a figura da trabalhadora como heroína. Alguns cartazes que foram lançados nesse ano representavam mulheres com características semelhantes a do homem trabalhador. O primeiro deles, é o “1º de Maio – Dia de trabalho voluntário de toda Rússia” feito pelo artista Dmitrii Moor.


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Primeiro de Maio: Dia do Trabalho Voluntário de toda a Rússia

Nele podemos ver que junto ao homem, ainda que em posição de menos destaque, agora também há uma mulher trabalhadora da indústria metalúrgica. Aqui podemos ver uma referência a uma mulher real, afinal, 33% da força de trabalho industrial em Petrogrado em 1917 era composta por mulheres e esse número subia para 43% quando olhamos para a Rússia como um todo. Contudo, elas representavam a maioria das trabalhadoras da indústria têxtil, sendo a metalurgia ainda majoritariamente um trabalho masculino. Por que a mulher é representada enquanto trabalhadora metalúrgica, executando uma tarefa que normalmente não fazia de fato nessa indústria? Vemos assim que se representa uma trabalhadora, mas alçada à condição de heroína, e que compõe a cena com o trabalhador herói, o qual já vinha sendo representado como metalúrgico.

Outro cartaz importante de 1920 é o intitulado “O que a Revolução de Outubro deu à Trabalhadora e à Camponesa”. Nesse podemos ver a mulher como protagonista, vestindo um macacão e segurando um martelo o que a identifica como trabalhadora. Aos seus pés vemos uma foice, que simboliza a união com o campo. A trabalhadora aponta para prédios onde estão indicadas algumas conquistas da revolução para as mulheres como “maternidade”, “biblioteca” e “clube das trabalhadoras.



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“O que a Revolução de Outubro deu à Trabalhadora e à Camponesa”. (1920)

A partir de 1926, aparece com força a figura da mulher trabalhadora. Em “Mulheres Emancipadas – Construam o Comunismo” do artista Adolph Strakhov vemos uma mulher que olha para frente com olhar determinado – a fábrica no fundo a identifica como trabalhadora. A bandeira em sua mão a identifica ao comunismo.


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“Mulheres Emancipadas – Construam o Comunismo” do artista Adolph Strakhov (1926)

Juntando as informações presentes na legislação da época e as imagens dos cartazes, podemos entender que houve transformações importantes para a vida das mulheres após a Revolução. No entanto, vemos que esse processo é complexo e contraditório, pois ao mesmo tempo em que houve importantes conquistas em termos de legislação para as mulheres, na propaganda revolucionária as mulheres não figuravam como protagonistas desse processo. Isso muda ao longo do tempo, como vimos nas imagens que mencionamos.



Referências:


AMÉRICO, E. V.; SENNA, T. C. A baba e a Nova Mulher nos cartazes soviéticos dos anos 1920-1930. Galáxia (São Paulo), n. 37, p. 135–148, abr. 2018.

BONNELL, V. E. Iconography of Power: Soviet Political Posters under Lenin and Stalin. [s.l.] University of California Press, 1998.

FREITAS, R. O.. Realismo Socialista: uma Análise do Lugar da Mulher em Cartazes Soviéticos da Segunda Guerra Mundial. In: IX Simpósio Nacional Estado e Poder: Gramsci na Pesquisa Histórica, 2016, Niterói. Anais do IX Simpósio Nacional Estado e Poder: Gramsci na Pesquisa Histórica, 2016. p. 672-687.


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