História e Música: Tecnologias e Memórias

Por Juliana Wendpap Batista (Historiadora, Doutora em História pela UFF)

O caráter polissêmico da música e sua linguagem não referencial, transformam essa matéria em um campo de pesquisas indócil. Compreender o seu sentido no tempo, e através do tempo, não se faz apenas por meio de um simples processo de decodificação, mas sim a partir do entendimento de sua construção numa rede de múltiplos agentes, esses nem sempre visíveis. O problema reside, em primeiro plano, na própria essencialidade do material musical: como tratar uma fonte intangível?



musica e historia
Pintura num vaso grego antigo que representa uma lição de música (510 a.C.)

A música escapa de nossas mãos, sendo verificável apenas por meio dos indicativos do seu processo. Podemos ver sua grafia numa partitura, mas ela só acontece ao ser executada.

Por outro lado, ela independe de sua escrita, ou até, de instrumentos musicais, fazendo-se acontecer no soar melódico da nossa voz. Trata-se de um fenômeno tido como universal, pois sua presença é verificável em todas as épocas, entre os diferentes povos e culturas que habitam nosso planeta.


A notação musical, até fins do século XIX e início do século XX, foi a grande guardiã da memória musical. As partituras constituíam então o único meio de conseguir execuções múltiplas e fiéis de uma mesma obra. As inovações tecnológicas, como o fonógrafo, chegaram para driblar a efemeridade da música, a qual passou a ser apreendida em suportes de mídias fonográficas, chegando ao século XXI com larga distribuição e reprodução via streamings, em plataformas digitais. Isso faz a música extrapolar os limites do acontecimento de sua execução, permitindo sua manifestação posteriormente, ficando acessível assim a todos, em qualquer momento ou lugar.


Reflexões sobre a relação intrínseca da música com o tempo, encaminham para a maior afinidade desta forma artística com a história: o próprio tempo. Marc Bloch define a história como “a ciência dos homens no tempo”, contrapondo a visão da “história como uma ciência do passado”. Ele também pondera que se “esse tempo verdadeiro é, por natureza, um continuum (…), [é] também perpétua mudança”. Esta constante preocupação dos historiadores com o tempo histórico deve ser considerada nas pesquisas sobre músicas, as quais produzidas pelo homem no tempo, a cada situação de reprodução, acabam por trazer consigo a diferença. Surge, então, um segundo problema para o pesquisador: nossos ouvidos podem atingir um padrão de audição capaz de compreender o momento de produção, ou mesmo de reprodução, de uma obra musical?


Dilemas metafísicos e desafios de parâmetros de escuta são apenas algumas das preocupações que têm ocupado os pesquisadores nos últimos tempos, tanto musicólogos, quanto historiadores. Nesse percurso, os estudos de história e música incidiram por encontros e desencontros, caracterizados pela própria epistemologia e busca de uma definição destes dois campos de saberes. Estes refletem as preocupações e dificuldades vivenciadas pelos interessados na temática e no ato de “pensar” a música.


Memória em tempos de internet

Pensar a música no tempo é pensar o movimento dos sons, assim como pensar a história é refletir sobre as memórias em movimento. Os sons do mundo não cessam, quando pensados globalmente. Na ordenação, de parte desses sons, são geradas milhares de músicas, que tocam sem parar ao redor do mundo. Isso se verifica facilmente na era digital em que vivemos e a qual faz crescer ainda mais a indústria de entretenimento. Dela, faz parte a indústria fonográfica, que ao longo do século XX estruturou-se para a transformação das músicas em produto, em vários casos com enorme êxito, temos aqui a ideia de sucesso, de onde surgiram ídolos que marcaram suas décadas. Transformada em produto, a música transpôs distâncias e rompeu continentes. Levada, primeiro pelas ondas do rádio, depois pela TV via satélite, agora alcançou o mundo por meio da internet. A internet e suas redes sociais propiciam uma interconexão, dita sem limites. Podemos assistir simultaneamente, e praticamente em tempo real, eventos de entretenimento ao redor do mundo. Atualmente, com o fenômeno vivenciado pela pandemia do COVID 19, elas tem sido uma ferramenta muito valiosa para manter a produção artística viva, aproximando públicos e artistas.

É preciso lembrar que antes de tornar-se mercadoria, a música é produto cultivado pelos homens na ancestralidade. Ao longo dos séculos, em seus meios, criou sentidos e memórias através do tempo. Como fruto dos homens, carrega as contrariedades e limitações próprias do tempo em que foi concebida. As transformações tecnológicas, compreendidas a partir do desenvolvimento dos primeiros instrumentos musicais, passando pelo surgimento e ampliação de técnicas de gravação dos sons e imagens em suportes de mídia analógicas e digitais, até a criação de meios virtuais de indexação e propagação das mesmas, mudaram as relações de produção e recepção das músicas ao redor do mundo.

Se por um lado, a rede de internet homogeneíza e massifica, entre outros produtos, também as músicas, por outro lado, também cria ferramentas e espaços para diferentes manifestações culturais, compartilhando saberes numa contínua diversificação do mundo. Etnias contrastantes, fundamentadas na oralidade, têm hoje representações de suas tradições facilmente localizáveis em vários sites de compartilhamentos de vídeos. Isso deve ser percebido sem a crença de que vivemos em um mundo onde todos estejam conectados, tampouco ser gerido por certo maniqueísmo que divida o mundo entre aqueles que estão dentro ou fora da rede.

O que chama a atenção nessa era digital é a velocidade com que sua atuação vem alterando a percepção do mundo pelos sujeitos. A escrita da história, habituada com os arquivos e seus documentos, os quais há poucas décadas atrás, materializavam-se em pilhas e pilhas de papel, também se esforça para apreender um número sem fim de informações geradas e compartilhadas, dia após dia, em plataformas digitais.

Superada a ampliação da noção de documento, assistimos hoje ao alargamento das possibilidades de pesquisa e divulgação de todo tipo de informação. Ao longo do século XX, as transformações tecnológicas possibilitaram a multiplicação das mídias através de meios técnicos que revolucionaram as formas de produção, reprodução, armazenamento e difusão de mensagens.

É inegável que o rápido desenvolvimento, dessas e outras tecnologias, na virada do século XX, transformaram também a maneira de ensinar, pesquisar e divulgar a história.

É nesta seara, de um mundo digitalmente compartilhado, que vamos busca tecer relações entre história, memória e música.


Adaptação do texto:

BATISTA, Juliana Wendpap. Pensando a musica no tempo: Reflexões sobre a pesquisa história em história e Música entre os séculos XX e XXI. In: MEDEIROS; SOUZA (ORGS). História & Música Popular. Teresina: EDUFPI, 2013. pp. 13-41.


Referências:

BLOCH, Marc Leopold Benjamim. Apologia da História – o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.


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