O pecado, remédio da Peste

Conto de Lucas Dolejal (Unioeste - História)


Éramos sete no começo. Quando mamãe morreu, minha irmã mais nova tinha quatro meses e chorava o tempo todo, e eu na qualidade de único filho homem tinha a responsabilidade de sustentar a todos. Comprei uma vaca magra e velha, pois foi a única que consegui pagar, para o leite da pequena Cecília, e Maria, com 14 anos a alimentava.

Nossas últimas economias tiveram essa finalidade, sendo assim meu único recurso foi arranjar um emprego de alimentador de fornalhas na ferraria da vila. O rapaz que exercia essa função antes perecera da mesma peste que levou a mamãe. Todos os dias eu selava o corcel negro do papai e galopava até os portões de Vinhedo antes mesmo de terem sido abertos, pois os soldados os fechavam à noite para evitar a entrada indesejada de pessoas contaminadas. Draco era a única coisa bonita que tínhamos. Papai comprou-o com o prêmio que recebeu de melhor arqueiro da cidade, e mamãe quase matou-os ambos quando soube, pois precisávamos de roupas novas e ele havia gastado a gorda recompensa com um “cavalo mais bonito que ele”, disse mamãe.

Meu salário era o suficiente para o trigo e o azeite, de forma que nossas refeições eram compostas por leite, pão e ovos das galinhas que ainda não tinham fugido da nossa casa no meio da floresta por falta de alimento ou sido comidas pelos lobos. Minhas irmãs mais velhas, Maria e Sara, de 12, coletavam madeira na mata para nos aquecer e caçavam corvos e pombos, e às vezes os cachorros achavam coelhos, mas depois que os galgos morreram só comemos aves.

Minhas outras três irmãzinhas eram um par de gêmeas: Alice e Alicia, com quatro anos, e Ana, com dois. Não podendo ajudar em nada diretamente, Maria e Sara criaram uma espécie de jogo no qual elas deveriam passar a vassoura pela casa para afastar os monstros. Funcionava bem para aliviar a carga das duas mais velhas.

Um mês antes de eu completar 18 anos, Ana se foi. Ela acordou com calafrios e antes do escurecer já havia sucumbido à febre. Mais rápido que a mamãe, que levou quatro dias, e o papai, que sofreu por 6. Os dois últimos sem consciência de quem era, apenas delirando palavras aleatórias sobre seu amor pela mamãe e por nós. Faltei ao trabalho para enterrá-la no dia seguinte, e o senhor ferreiro me deu a conta quando apareci, dois dias depois. Disse que todos estávamos perdendo familiares, e que precisávamos mais do que nunca nos dedicarmos ao trabalho. Tentei arrumar outro trabalho, mas ninguém me aceitou, ou por falta de vagas ou por desconfiança pelo fato de meu último serviço ter me dispensado pouco tempo depois de eu ter começado.

peste negra

Quando contei à Maria, ela começou a chorar. Tentei acalmá-la, mas ela estava histérica. Sua respiração fazia seu peito inflar-se como um fole que eu usava nas fornalhas, e eu a apertei forte contra o meu. Sara entrou na sala em que estávamos, vinda do quarto que todos nós dividíamos (não tínhamos coragem de dormir na cama dos nossos pais depois que eles se foram) carregando a pequena Cecília. “É Alicia. Está com a febre também.” Maria e eu nos entreolhamos, não podíamos contar a ela sobre meu emprego, então tentamos demonstrar o mínimo possível a gravidade do assunto que discutíamos anteriormente. Sara pareceu notar algo, mas nada disse, esperava uma resposta sobre o que fazer com Alicia.

Obviamente ela já sabia o que faríamos, o mesmo que mamãe fizera com o papai e mandou-nos fazer com ela. O mesmo que havíamos feito com a frágil e murmurante Ana durante o único dia que ela suportou. Cortamos em rodelas duas batatas e as embebemos no vinagre. Colocamos as fatias dispostas sobre sua testa e ínguas e cobrimos seu delgado corpo novamente. As mãos de Maria tremiam e eu as segurei entre as minhas. Sequei suas lágrimas e prometi que tudo ficaria bem, que Alicia se salvaria.

Mas nem ela, nem sua gêmea resistiram. Murmuraram durante alguns dias sobre não terem varrido monstros o suficiente para fora, e que agora eles estavam devorando-as, e uma semana depois de termos enterrado aqueles quatro olhos brilhante e azuis sem vida e queimado suas cobertas, Sara começou a inchar.

A comida já rareava e estávamos todos tremendo de frio, pois nenhuma das meninas tinha vontade de procurar lenha seca na floresta, abaixo de chuva. “O que é isso no seu pescoço Sara?”, perguntou Maria, e batendo os dentes Sara respondeu que nada. Seus lábios ficaram azuis no fim da noite, e após três dias seus dedos estavam pretos como carvão. Ela demorou mais do que todos a morrer, e sussurrava entre rangidos de dentes que queria Alice e Alicia de volta. Foi difícil enterrá-la, mas ela foi a última. Eu e Maria passamos duas tardes levantando apenas para alimentar Cecília, e abraçados o resto do tempo, ainda atônitos por termos perdido nossas quatro irmãs. Eu saí para caçar no outro dia, mas não encontrei nem um corvo. A chuva os havia afastado, e atraído ratos para o meio do lodo. “Pelo menos não estamos na cidade, com aquele odor que trás a peste”, pensei.

Decidimos matar a vaca antes que morresse de fome, mas Cecília ainda não comia nada que não fosse molhado no leite. Maria já estava completamente transtornada pela fome e o medo, e quando me viu de mãos vazias um estranho brilho passou pelos seus olhos. Ela tomou a pequena, que engatinhava tristemente no chão de pedra e olhou-a com desprezo. Eu entendi o que se passava em sua cabeça e gritei “deixe-a, vamos vender o cavalo”, mas era tarde demais, sua mente já estava feita, tomada pela loucura. Ela atirou a bebê no chão como papai fazia com porquinhos que nasciam muito pequenos, e eu ouvi o som seco de sua cabecinha esmigalhando.

Me enchi de ódio, e não me lembro de mais nada. Quando dei por mim estava asfixiando minha irmã, e, se tivesse recobrado a consciência um segundo mais tarde a teria matado. “Ela precisava ir irmão” - disse ela. “Morreria mais cedo ou mais tarde pela peste, eu a livrei do sofrimento”. Eu saí sem dizer nada, peguei o machado encostado na parede e rachei em dois o crânio da esquálida vaca.

Naquela noite, depois de enterrada nossa irmãzinha querida, jantamos bem. Abrimos um vinho, que seria destinado a virar vinagre para desinfetar a casa, como todo o vinho fora desde o começo da peste, e tomamos enquanto comíamos um bife bem temperado.

“Vamos morrer, não vamos?” ela perguntou quando nos sentamos à beira do fogo depois de satisfeitos.

“Sim, eu espero ir primeiro. Não aguentaria te ver morta”.

“Não faça isso comigo, não me deixe aqui, eu vou junto contigo se isso acontecer.”

“Pegue Draco, cavalgue até a cidade mais distante que conseguir, salve-se.”

“Não sem você”, ela se aconchegou no meu ombro.

Notei que crescia em seu pescoço o conhecido nódulo rígido da peste, ainda bem pequeno, e percebi que seria eu que teria que ouvi-la delirar e enterrá-la no quintal, não o contrário. “Eu vou ficar contigo para sempre”, respondi. E ela me olhou nos olhos como se pedisse uma garantia. A única garantia que eu poderia dar era meu amor por ela, pela minha irmã, minha companheira que dividiu comigo a árdua e injusta tarefa de cuidar das nossas irmãs mais novas naqueles últimos meses. E a única prova possível desse amor eu lhe dei. Beijei-a e ela retribuiu, como se esperasse por aquilo há bastante tempo. Quando terminamos, eu coloquei lenha sobre as brasas e a vi dormindo, o suor escorrendo por seu rosto no chão frio de pedra. Cobri seu corpo e beijei sua testa. Eu não poderia cumprir minha promessa, não poderia ver minha amada irmã morrer daquela forma tão dolorosa, que já tinha se tornado uma rotina aos nossos olhos.

Selei Draco e voei através das sombras das quais ele, negro como ébano, parecia fazer parte. Cavalguei por mais de vinte léguas noite adentro, e quando a aurora aproximou-se, decidi que era o suficiente. Apeei e tirei os arreios do corcel, deixando-o livre no campo aberto em que estávamos. Peguei a corda que trouxera junto e subi num grande carvalho que lançava suas primeiras sombras do dia. Fiz o nó do carrasco, que papai me ensinou quando criança, para amarrar os animais, e meu último pensamento antes de pular para o aconchegante descanso suspenso foi: “Que Maria não sofra por muitos dias. Que ela venha me encontrar no inferno e que possamos gozar juntos de uma vida prazerosa lá.”

Pois qualquer que fossem os castigos que o satanás reservasse aos assassinos incestuosos, era um deleite de prazer comparado à vida que tivemos naquele mundo dos filhos de Deus. E nós teríamos um ao outro novamente, como sempre tivemos.




INFOGRÁFICO SOBRE A PESTE NEGRA

Luíza Beilke Kuntz (Unioeste - História)



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