Os lavradores e a terra no Paraná oitocentista

Atualizado: 10 de Jul de 2020

Por Prof. Dr. Fabio Pontarolo (Universidade Federal da Fronteira Sul - UFFS)


Até o século XVIII, todo o Oeste do estado do Paraná fazia parte dos territórios tradicionais dos indígenas Kaingang e Guarani, que somavam milhares de habitantes em diferentes grupos espalhados pela região. Essas áreas eram repletas de campos e pinheirais que se estendiam até o Rio Grande do Sul. Pelo sistema Colonial, as terras do Paraná também estavam sob poder da Capitania de São Paulo.


A PRIMEIRA TENTATIVA DE OCUPAÇÃO


Com o avanço das fazendas de criação de gado de portugueses e paulistas na região de Castro e Curitiba, o gado criado nessas fazendas era levado por tropeiros pelo caminho do Viamão até Sorocaba, em São Paulo, onde era vendido para o Rio de Janeiro e para Minas Gerais.

A partir de 1750, os fazendeiros dessas cidades passaram a fazer novas expedições contra os indígenas mais à Oeste, e com ajuda do governo colonial português, tentaram expandir suas propriedades em direção aos campos de Guarapuava.


Ilustração resistência indígena

Porém, em 1772, após 4 anos de tentativas, as tropas comandadas pelo português Afonso Botelho foram derrotadas pelos indígenas Kaingang, que conseguiram adiar a tomada dos seus territórios pelos fazendeiros dos Campos Gerais.


A OCUPAÇÃO NO SÉCULO XIX


Em 1809, após a chegada da família real portuguesa ao Brasil, uma nova expedição foi preparada e enviada de Curitiba para os Campos de Guarapuava. Por ordem de Dom João VI, os indígenas deveriam ser catequizados, e aqueles que resistissem à ocupação de suas terras tradicionais poderiam ser escravizados pelos fazendeiros que ocupassem o território.

Porém, o decreto real também ordenava que além de grandes sesmarias, fossem distribuídas pequenas propriedades para os lavradores pobres dos Campos Gerais e de toda a província de São Paulo que migrassem para Guarapuava. Esses pequenos terrenos formavam o chamado “Campo da Pobreza”, e deram origem a grandes bairros de Guarapuava, circulando a área central da cidade. Nesses pequenos terrenos com apenas alguns alqueires, esses lavradores produziam milho, feijão e ainda criavam alguns animais.

Muitos desses agricultores pobres eram de origem negra ou indígena, muitos deles libertos da escravidão. Formavam um grupo de até 85% dos habitantes de Guarapuava, mas, em comparação com as grandes fazendas, ocupavam menos de 15% das terras da região. Mesmo assim, tinham um papel muito importante na economia da região.

A partir de 1840, com a abertura do Caminho de Missões, criou-se uma nova rota do Oeste do Rio Grande do Sul até São Paulo, e anualmente mais de 30 mil animais passaram a atravessar Guarapuava rumo à Sorocaba para abastecer as fazendas de café com mulas, cavalos e bois. Durante a viagem, um dos pontos de parada dos tropeiros eram as invernadas de Guarapuava: fazendas transformadas em espaços de pouso, engorda e descanso dos animais até seguirem viagem.



A RESISTÊNCIA DOS PEQUENOS AGRICULTORES

Durante essas estadias, os pequenos lavradores podiam vender os produtos agrícolas que não consumiam com suas famílias. Assim, supriam parte das necessidades das tropas e faziam algum dinheiro que lhes garantia o complemento do sustento de suas famílias sem precisar depender do trabalho constante nas grandes fazendas. Até um pequeno mercado municipal foi criado para esse fim, com diversas barracas onde os lavradores podiam vender seus produtos.

A venda do milho, do feijão, além de batatas e de outros produtos das pequenas lavouras evitava a exploração da mão de obra desses lavradores pelos fazendeiros. Estes grandes proprietários muitas vezes escreviam ao governo paranaense reclamando da dificuldade em contratar os lavradores para substituir a mão de obra nas fazendas após o fim do tráfico de escravos para o Brasil em 1850.

Em 1853, o Paraná se emancipou de São Paulo, tornando-se uma nova província no Brasil Império. A economia do gado e da erva-mate deram ainda mais poder aos grandes fazendeiros paranaenses. Em 1854, os deputados da Assembleia provincial e o primeiro presidente da província, Zacarias de Góes e Vasconcelos, iniciaram a aplicação da Lei de Terras de 1850 no Paraná. Uma das maiores consequências dessa lei foi a transformação de todas as terras sem registros de propriedade, à Oeste de Guarapuava, em área devoluta, ficando sob propriedade do governo da província. Essa medida não levava em consideração que as terras já tinham donos.

A partir de 1850, com o crescimento natural das famílias, os lavradores de Guarapuava e de todo o Paraná que precisavam de novos terrenos para plantar não tinham mais acesso à terra. Com o avanço da exploração da erva mate nas matas devolutas da província, era no trabalho de coleta nos ervais nativos que os lavradores complementavam a renda familiar. Outro caminho encontrado por essa população foi o trabalho na derrubada de árvores para grandes madeireiros, que fizeram muito dinheiro com a exploração clandestina dos grandes pinheirais na fronteira Oeste do Paraná, escoando a madeira para a Argentina.

Hoje, certamente ainda se produz na representação coletiva da ocupação do Oeste do Paraná um imaginário baseado no imigrante europeu visto como o valente pioneiro a ocupar um espaço ainda vazio. No entanto, muitos lavradores e indígenas fizeram parte do passado da ocupação do Oeste do Paraná. No início do século XX, a Guerra do Contestado mostrou outras faces dos descendentes dos lavradores pobres do século XIX, ainda em luta pelo direito à terra no Paraná.


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Para saber mais:


http://tede.unioeste.br/handle/tede/4418


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