• Marcio Both

QUANDO CARLOS (MARX) ENCONTRA UMBERTO (ECO) NO BAR

Por Márcio Antônio Both da Silva (Prof. Unioeste)



- Boa noite senhor! - Boa noite meu caro. Há quanto tempo? - Pois é. Essa vida anda corrida. Confesso que se o dia tivesse 48 horas, nos últimos meses eu ainda assim não teria terminado meu trabalho cotidiano... Tomando uma taça de vinho Umberto? - Sim, em dias frios e chuvosos como o de hoje, nada melhor do que um bom vinho acompanhado de um suculento prato de macarrão. E você, o que vai pedir Carlos? - Sou um incorrigível, deve ser problema de origem, vou querer o de sempre, cerveja e salsichão..., mas hoje vou querer uma daquelas de trigo. Como é que fala? Weiss? - Isso! Boa pedida... - Mas me diga lá Umberto, o que andas pensando e fazendo ultimamente? Tem algum livro na cabeça? Algum tema ou problema lhe causando incômodo? - Nem me fale Carlos, nem me fale! Cada vez mais ando desacreditado dessa vida. Por vezes tenho impressão que Pandora, essa primeira mulher criada por Zeus, resolveu voltar das profundezas da antiguidade, abrir sua caixa e dar livre passagem a todos os males do mundo. - Você e seus mitos Umberto. Você e seus mitos... Na verdade, acho que você é uma caixa de mitos. Aquele seu livro sobre a idade média trata de um montão deles, não é? Adorei o livro! Mas sou ruim para nomes e títulos, como é que era o título dele mesmo? Ando esquecido ultimamente, vai ver é a idade... Já não sou mais aquele jovem do qual ultimamente tantos vem falando... - Não se preocupe, nomes são nomes Carlos. O importante é que lembras do conteúdo. Me alegra ainda mais saber que leu um dos meus livros e, sobretudo, que gostou dele. Isso muito me lisonjeia. Mas saiba também que li muitos dos teus escritos. Aquele do imperador francês fajuto que se dizia sobrinho de outro imperador não tão fajuto assim é de encher os olhos. - É um dos livros que mais gosto. Por falar nisso, esse negócio de imperador fajuto e caixa de males do mundo, faz pensar nos últimos acontecimentos, não é? - Então, até você chegar estava conversando com minha taça de vinho sobre isso. É pandemia daqui, invasão de gafanhotos dali, vendavais e enchestes de lá e não sei mais o que de tragédias que vem acontecendo. Olha que não mencionei a situação política que estamos vivendo. Tô pra te dizer que o imperador fajuto francês daquele teu livro é muitas vezes mais interessante do que muito presidente, governador, deputado, prefeito e vereador que anda governando por aí... - Tudo um bando de bocós Umberto, um bando de bocós. Ou melhor, perigosos bocós! Deixa-me te contar, já que antes falávamos de mitos e agora falamos de bocós, andei lendo algumas coisas sobre o tema antes de vir para cá... Você sabia que até bem pouco tempo atrás havia alguns historiadores que afirmavam que o crescimento dos mitos cristãos durante o Império Romano foi possível apenas porque a imprensa ainda não fora inventada naquela época? - É? Não sabia... - Sim, Umberto. Mas eu penso precisamente o contrário! - Explique Carlos, criastes uma curiosidade em minha cabeça e quero acompanhar teu raciocínio. Ele parece interessante, assim como a ideia de que os mitos se espalham mais facilmente quando não existe imprensa. Digo, imprensa com “I” maiúsculo, não esses “jornalecos” ou “jornalões” que estão por aí... - Então Umberto, vou me ater ao século XIX, que é o contexto que conheço melhor e porque tenho conversando bastante com o Louis K. sobre o tema. – Conhece o Louis, não é? – Depois, você que está mais submerso nos problemas da comunicação no mundo contemporâneo, pode dizer se estou certo e, inclusive, complementar meu raciocínio... Vamos lá... No século XIX, a imprensa diária e o telégrafo, comparativamente ao que existia antes, em um instante, conseguiram difundir invenções e notícias por todo mundo. Não é? Contudo, fabricaram e espalharam mais mitos do que em qualquer outra época histórica. Concorda? O imperador fajuto do qual você falou antes é um exemplo! Para piorar, o gado burguês, muito devido ao trabalho da imprensa, acredita nesses mitos. Além disso, aumentou significativamente com base neles. Veja só, depois de Gutemberg, da imprensa, em um dia se faz mais nesse sentido de criar e espalhar mitos do que antes se fazia em um século! Não achas? - Muito interessante. Mas muito interessante mesmo esta sua ponderação meu amigo. Digo mais, acho que tens razão. Não discordo de ti! - Que maravilha, mas desenvolva e apresente teu argumento meu caro. Estou curioso... - Veja bem, uma vez que lançastes o desafio, vamos a ele... a coisa não para onde você parou, pois, se tomarmos como exemplo o mundo atual, ela toma outros contornos, em algum sentido mais perigosos. - Explique, a curiosidade só aumenta. Por isso gosto de conversar contigo! - Na verdade Carlos, se o foco da nossa conversa for os dias de hoje, chegaremos ao bando de bocós de que tu falavas antes. Para mim, além de bocós, são imbecis. Homens e mulheres que, até algumas décadas atrás, como eu e você estamos fazendo agora, depois de uma taça de vinho, conversavam em uma mesa bar, mas sem prejudicar a coletividade. Entretanto, esse negócio de Internet e redes sociais, que me parece ser algo até positivo em alguns pontos, foi bastante eficiente em dar voz a uma legião de imbecis. Normalmente, eles eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel. - Perfeito! Tome um gole para molhar a palavra e continue. Como disse, os dias atuais são bastante estranhos para mim. Nem computador tenho... - Veja bem, a televisão já havia dado um jeito de piorar o quadro que você pintou a partir do século XIX, amplificando a voz dos idiotas, mas agora o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade. Hoje já não é mais possível saber ao certo o que é confiável ou não. Enfim, meu amigo, se no século XIX se fazia mais em um dia do que se fazia em um século no mundo antigo, hoje se faz mais em um minuto do que se fazia em um dia na tua época. Quer uma prova? O gado de que você falou antes, está aí a crescer, a negar o inegável e a questionar o inquestionável. A tragédia continua se repetindo, seja como farsa, seja como comédia. Até de comunista já me chamaram! Você sim é um comunista de monta, mas não sei se este adjetivo é adequado para mim... O que tu achas? Talvez sim... Sou um humanista, coisa que você também é.... Na verdade, esses imbecis nem sabem ao certo o que significa a palavra comunista. São o que são: Gado! - Certo Umberto! Sábias palavras, sábias e certeiras palavras. Mas eis que chegou nossa comida, vamos a ela. Como acabas de lembrar, estamos em um bar, você a tomar teu vinho e eu a minha cerveja, deixemos os imbecis de lado. Voltemos a conversar de mitos e deuses, mas agora sobre Dionísio, esta é a hora etílica da crítica da crítica. Um brinde a nós! - Um brinde! * * * * Este conto utiliza excertos de carta enviada por Carlos Marx a Louis Kulgemann em 27 de julho de 1871 e da palestra proferida por Umberto Eco no dia 10 de junho de 2015, quando recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Turim.



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