Bruxas e Feiticeiras na Era Moderna: sobre o livro O Calibã e a Bruxa de Silvia Federici


infográfico Silvia Federici
Infográfico produzido pela acadêmica Luara Quadros Rodrigues (Unioeste - História)





Resenha de Claudia Monteiro (Unioeste, Campus de Marechal Cândido Rondon)


A bruxa é uma personagem importante do imaginário ocidental, está presente de maneira bastante intensa e perturbadora em filmes de terror, em contos de fada, em romances, em obras de arte...

Desde crianças estamos acostumados a ouvir e a temer histórias de bruxas.

Mas qual é a história das bruxas?

Porque centenas de milhares de mulheres foram queimadas no passado sob a acusação de bruxaria?


A historiadora Silvia Federici no livro “Calibã e a Bruxa”, busca nos contar um pouco dessa história, procurando entender o porquê dessa perseguição às mulheres na época moderna.

A partir um viés marxista e trazendo ao mesmo tempo as questões de gênero, a historiadora problematiza grande parte da historiografia que vê a culpa da perseguição nas ações das próprias vítimas: era a mulher delirante que teria afirmado o prazer da cópula com o demônio, a tola que usava uso de feitiços malignos ou a louca que protagonizava em crimes hediondos.


Calibã e a Bruxa
Capa do livro de Silvia Federici

Há uma misoginia na historiografia sobre o tema da bruxaria e da feitiçaria que incrivelmente ainda joga a culpa sobre as mulheres, vítimas de séculos de perseguições, torturas e fogueiras.

Pois não podemos nos esquecer que a tortura foi o meio oficial da Inquisição alcançar suas verdades. Aquelas mulheres consideradas bruxas admitiram todo o tipo de coisa para se livrar da dor e da violência a que eram submetidas nos interrogatórios do Santo Ofício.

Enfim, as pesquisas sobre o assunto em geral foram escritas do ponto de vista favorável à execução das mulheres, retratadas como fracassos sociais ou até mesmo como pervertidas, isso acabava corroborando a própria visão dos demonólogos da Inquisição,

E essa mesma visão de acusação e de medo da mulher e da bruxaria é reproduzida nos contos de fada e também em grande parte da produção cinematográfica, dos filmes e séries que retratam o tema, a mulher é sempre a sedutora, a maléfica, a demoníaca...

Somente com o advento do movimento feminista é que a história das bruxas começou a ser vista de modo diferente. A bruxa clandestina passa a ser vista como um verdadeiro símbolo da rebeldia feminina.

O primeiro ponto questionado pelas feministas era a misoginia com que a mulher sempre foi retratada na história, escrita durante muito tempo quase que, exclusivamente, por homens.

As feministas trouxeram ao debate as questões relacionadas ao controle do corpo, da sexualidade e dos saberes e conhecimentos das mulheres, pois as mulheres foram perseguidas e condenadas por bruxaria por tais práticas que, antes, eram consideradas como benéficas e necessárias para as comunidades em que viviam:

Conhecimentos tais como ervas contraceptivas e abortivas, unguentos e chás com poder curativo, rezas e rituais para boa colheita, etc...

Junto com o corpo da mulher foi condenado também um saber que ela detinha.

bruxaria
Mulher Queimando em Guersney, Gravura anônima do século XVI

O tema da caça às bruxas foi tido muitas vezes como secundário ou até mesmo como folclórico por diversos historiadores, Silvia Federici, pelo contrário, argumenta a centralidade desse processo e sua relação com a acumulação primitiva e o surgimento do capitalismo. É significativo que a caça as bruxas tenha ocorrido ao mesmo tempo do processo de cercamentos ingleses, do começo do tráfico de escravos, do domínio e colonização na América, e da promulgação das Leis Sangrentas contra vagabundos e mendigos. Ou seja, todo o processo que define o começo do capitalismo e a formação de uma massa de proletariados.

A caça às bruxas foi essencial para a desintegração das comunidades camponeses, dividindo homens e mulheres, combinado com o ataque e privatização das terras pelos cercamentos, inculcou nos homens camponeses o medo do poder das mulheres e destruiu todo um universo de práticas, crenças e sujeitos sociais, tal como a mulher curandeira e feiticeira.

É um consenso na historiografia que esse é um processo da época moderna, pois, na Idade Média não houve julgamentos e execuções massivas de bruxas, somente no século XV é que isso vai começar a ocorrer.

Martelo das feiticeiras
Malleus Maleficarum

Também no século XV se desenvolve a doutrina sobre bruxaria, na qual a feitiçaria foi declarada uma forma de heresia e como crime máximo contra Deus, contra a natureza e contra o Estado, é nessa época também, que foi escrito o tristemente célebre Malleus Maleficarum (O Martelo das feiticeiras).

Juristas, magistrados e demonólogos sistematizaram argumentos e deram forma burocrática aos julgamentos, a eles se juntaram importantes intelectuais tal como Hobbes e Bodin.

A perseguição não foi um processo espontâneo, mas parte de uma iniciativa que envolveu o Estado recém surgido. A Igreja Católica forneceu o arcabolso metafísico e ideológico para a caça as bruxas, mas ao contrário do que se parece, a caça as bruxas não foi somente o resultado da Inquisição, pois ela ocorreu de igual forma nos países protestante onde a Inquisição não atuava. Isso comprova a natureza política da caça às bruxas, e o papel do Estado nesse processo.

Mas por quê essa violência contra as mulheres?

Pelo contexto em que surgiu, podemos sugerir que isto tem relação com a resistência das mulheres contra a difusão das relações capitalistas: os crimes das bruxas era o mau-olhado, a maldição pela negação da esmola, a inadimplência do aluguel, a pobreza, a velhice...

Outra questão era o poder e conhecimento que as mulheres detinham sobre o seu próprio corpo, especialmente as práticas contraceptivas e abortivas. Essas práticas que eram anteriormente aceitas e inclusive eram necessárias para as comunidades, passaram a ser consideradas diabólicas e condenáveis.

Impedir a mulher de controlar sua própria sexualidade e a sua possibilidade de escolher ter filhos ou não, era controlar a reprodução da força de trabalho, transformada em recursos econômicos (como mercadoria) pelo novo modo de produção em ascensão: o capitalismo.

A caça às bruxas foi o primeiro passo de um longo caminho rumo ao sexo limpo e à transformação da atividade sexual feminina em trabalho à serviço da procriação.


Referências:


FEDERICI, Silvia. O Calibã e a Bruxa. Editora Elefante, 2017.


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