Imperialismo Alemão e imaginário colonial

Atualizado: 22 de Jun de 2020

Por Prof. Dra. Méri Frotscher (Unioeste, Marechal Cândido Rondon)




Em cada época os homens constroem ideias e imagens de representação coletiva para dar sentido ao mundo. Durante o imperialismo, a apropriação do mundo pelos europeus resultou num acervo de discursos, imagens e valores que construiu os colonizados como um contraponto negativo dos impérios coloniais ocidentais, que assim justificavam sua glória e suposta missão civilizatória.


Diferente da Grã-Bretanha e França, a Alemanha só se tornou um Estado e desenvolveu uma política colonial no final do século XIX, depois da sua unificação, ocorrida em 1871. A princípio relutante, o primeiro ministro Bismack via mais riscos que vantagens numa política expansiva no Além Mar, limitando-se a colocar sob a proteção do Império iniciativas privadas de colonização já existentes na África e Ásia.

O entusiasmo pela questão colonial, contudo, é visível nas reuniões da Sociedade para a Colonização alemã, que em 1887 já contava com 15.000 membros. Já na década de 1890 desenvolve-se uma política colonial mais forte fomentada pelo entusiasmo do novo e jovem Kaiser Wilhelm. Contudo, a política colonial é mais um esforço retórico, pois, em realidade, as propriedades coloniais alemãs eram pequenas e pouco significativas econômica e militarmente em comparação com as da França e Inglaterra.

Mesmo assim, logo a febre colonial invadiu o imaginário e o cotidiano das diversas camadas sociais alemãs. Imagens marcadas pelo colonialismo figuram em propagandas de produtos industrializados a partir de matérias-primas das colônias, em cartões postais na literatura popular, em revistas ilustradas e até mesmo no carnaval. O colonialismo, assim, não conquistou somente territórios, mas também o terreno da fantasia e do imaginário.


Estrategistas de marketing fizeram da atração pelo exótico um mote para propagandas dos mais variados produtos.

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Africa Oriental em propaganda de chocolate Cacau Hildebrandt (Coleção Peter Weiss)

Na propaganda do chocolate Cacau Hildebrandt, o exotismo transparece na representação de uma mulher nativa de uma colônia, de peito nu, que olha para o expectador mostrando o cacau produzido. Contudo, nos dizeres da propaganda, tanto o chocolate, quanto o cacau e o território onde vivem os nativos são representados como alemães.



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Propaganda do Chocolate Sarotti

Imagens exóticas do colonialismo e orientalismo acabaram criando símbolos tão marcantes, como a do mouro negro do chocolate Sarotti, que só em 2004 foi substituída por um mágico.


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Propaganda de alvejante de fábrica austríaca, 1905 (Coleção Peter Weiss)

Hoje certamente vista como racismo, esta propaganda utiliza uma imagem caricata de um negro para divulgar a eficácia de um alvejante.

A visão alemã sobre as populações nos protetorados era impregnada pelo social-darwinismo, teoria social que confrontava, de um lado, os senhores coloniais e, de outro, os nativos, vistos como primitivos e subdesenvolvidos. Os europeus olhavam para os habitantes nativos da África com fascinação e ao mesmo tempo temor. Em 1896, mais de 100 africanos foram trazidos para Berlim para a Exposição Colonial alemã, sob o único intuito de se deixarem observar, como animais num zoológico. Todos os dias depois da exposição eram transferidos para a chamada “vila dos negros”, onde eram desprovidos de toda privacidade e inspecionados uma vez por semana por um médico. O exotismo é a marca dos cartões postais impressos por ocasião daquela exposição. Caricaturas negativas decorrentes da propaganda colonial adentraram também na cultura popular, até mesmo nos livros infantis.

kleine Negerbuben - Legenda: Contracapa do livro infantil „Zehn kleine Negerbuben”, 1930
Contracapa do livro infantil „Zehn kleine Negerbuben”, 1930

A canção dos “Dez pequenos pretinhos” foi uma das canções infantis mais cantadas para ensinar os números às crianças. A música foi sempre recebendo adaptações. Na primeira versão, de 1885, o africano é representado como ignorante, desajeitado e incapaz de aprender. Os dez pretinhos são, por isso, eliminados um a um, até não restar mais nenhum ao final da canção.

Essa canção foi tão popular que recebeu ao longo da história novas versões com textos propositalmente destituídos daquele conteúdo colonial inclusive uma versão sarcástica voltada para adultos da banda de punk rock Die Toten Hosen.


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Referências:


BÖHLER, K.; HOEREN, J. (Ed.) Afrika: Mythos und Zukunft. Bonn: BpB, 2003.

GÖRTEMAKER, M. Deutschland im 19. Jahrhundert. 5a. ed. Bonn: BpB, 1996.

https://www.ernst-huber.de/schulmuseum/afrikaner/

https://www.spiegel.de/geschichte/koloniale-bilderwelten-a-946497.html

https://www.dhm.de/archiv/ausstellungen/namibia/stadtspaziergang/treptow.htm

https://www.planet-wissen.de/geschichte/deutsche_geschichte/deutsche_kolonien/pwiedieberlinerkolonialausstellungvon100.html

https://taz.de/Ausstellung-ueber-Kolonialausstellung/!5451479/

http://www.freiburg-postkolonial.de/Seiten/Rez-2010-Guaffo.htm

http://www.arne-schoefert.de/bildarchiv/archiv.htm